sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

CONCEPTUALISMO SIMBÓLICO

Cleaning e Amorfismo

Apartir de 88, a bidimensionalidade é assumida no estado de imagem pura. Esta imagem – imagem, possui duas vertentes: o cleaning e o amorfismo. Estas duas linhas não aparecem claramente distinguidas, antes se interpenetram, ora dominando uma, ora dominando outra, acabando até mesmo por se fundir.
Ao optar pela criação da própria imagem – o processo criativo é aqui agora levado aos seus primórdios – a intenção é criar a forma num determinado espaço (anteriormente a forma já existia e a “meta pintura” apenas lhe dava um novo sentido plástico), o autor opta pela forma humana e pela sua integração num determinado universo: este mundo é comum a ambas as linhas, pelo que, em outros casos, se torna difícil integrar esta ou aquela obra numa ou noutra linha. Resta, portanto, o factor tecnológico a condicionar, a impor, uma diferente leitura num caso ou noutro.
O cleaning está associado a uma relação de leveza, de suavidade – os personagens parecem voar na superfície do quadro, deslocar-se de um lado para o outro, entrar e sair do espaço, parecem impacientes, inquietos, mesmo quando aparentemente parecem destituídas de movimento8.
O amorfismo é destacado pelo peso que o espaço comporta, pela resistência que oferece ao olhar, como se se recusasse a qualquer identificação / interpretação. 
O cleaning é essencialmente constituído por grandes superfícies coloridas onde se aproveita o branco da tela para clarear, suavizar a côr utilizada. A massa patente no fundo e no personagem são de graus diferentes, possibilitando um jogo de transparência / opacidade, um jogo de luz / sombra. As figuras, as formas, são sombras num espaço de luz, a opacidade num mundo de transparência, espelhos num mundo de vidros, personagens a cujo espírito nos é vedado o acesso, porque são o reflexo de nós mesmos o que realmente percepcionamos.
O amorfismo é marcado precisamente por esta impenetrabilidade, por esta resistência ao conhecimento. Aqui a sombra toma a amplitude da noite, enegrece o horizonte, a luz que não se reflecte, que é absorvida pelo próprio quadro, parecendo querer roubar o nosso olhar (a este facto não é alheio a utilização de materiais mais porosos, como sejam pigmentos, gesso e areia).
Em “Le Voyeur” ensaia-se finalmente o princípio essêncial para uma nova concepção da obra de arte, com a união das duas atitudes: a descoberta la luz no seio da sombra. A luz invade a sombra por uma porta entre-aberta. Espreita a sombra; atitude que é directamente transposta ao observador: a luz que ilumina a sombra possibilitando ao observador ver (ou prever) aquilo que se esconde sobre a sombra: a luz é expressão da ideia que o quadro pretende transmitir.

Alfarrabista de Stephen Zweig, 1988
Are You Wayting Mr Byrn?, 1989
Dançarino c/ Guarda Chuva, 1988
Sam Shepard Imitando o Discóbulo, 1988
Le Voyeur, 1989 (estudo)

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