sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

DESENHO A PRETO E BRANCO

Concepção estética da forma e da linha

A leveza da atmosfera, a rigidez das formas, a ingenuidade da criança, a preocupação estética e adolescente do estar vivo, os rostos de mulher e respectivos bustos, as estruturas geometrizantes. É uma fase de revolta, de ambientes sombrios e formas assustadoras, encerradas em si mesmas, esperando por serem libertadas. É o anseio por um espaço maior, libertador da alma.
A libertação surge de forma devastadora, com inserção da forma feminina (“O Olhar dos Corpos Dançantes”, “Galáxia dos Cristais”, “Looking at the Top”, “A Senhora do Manto Branco”, “Olho-te Daqui”). A mulher é o veículo pelo qual surge a revolta, o despertar da mente e do corpo. É a descoberta de que o sentimento e a vida, ou a experiência vivida, coexistem lado a lado numa estrutura simbólica (própria a cada ser). Essa estrutura é, antes de mais, o denominador comum registado nestes primeiros desenhos; o fantástico, o sonho. Do retratável, do desenho à vista, passa-se ao imaginável, ao confronto entre o mundo que nos rodeia e a forma como sentimos a existência desse real. A arte aqui procura, é utilizada, para retratar a própria vida, relatar tudo aquilo que possa ser significativo para as nossas vidas. Esse relato é, no fundo, o situar-nos num determinado universo pessoal ou impessoal.
Cada fase de uma determinada obra é importante para a compreensão do verdadeiro “eu” inerente ao conjunto global da obra. No fundo, o início é o desejo fremente de que algo mude nas nossas vidas. Este início surge de uma forma gritante, um grito angustiado que se intensifica ao longo de quatro anos, com uma violência crescente, enérgica e esmagadora perante o peso da linha, que se torna cada vez mais cortante, incisiva, uma vez que o vazio se intensifica.
Partindo de uma exploração do espaço através da sombra e da forma, como em “O Olhar dos Corpos Dançantes”, no qual a exploração da sombra em cruzadismo se sobrepõe à anunciação da linha da forma, o desenho acaba por cair na linha pura, no traço construtivo da forma pura.
O desenho é suavizado momentaneamente até 86, altura em que a cor acaba por dominar plenamente sobre o preto e branco, fase anunciadora de uma nova visão da sociedade e da própria vida. A ruptura anuncia-se, porém, três anos antes, em 83, no qual o estágio da revolta se torna até anti-social. Essa ruptura é preconizada com a inserção da colagem na composição do desenho a preto e branco.
No período que se lhe seguiria, o “período experimental BD”, o desenho é totalmente abandonado com “Imagens de um Dragão” em 87. O abandono do desenho a preto e branco – que apresenta vários estágios de evolução até à pintura – deveu-se a uma certa saturação na repetição da forma expressiva: não fazia já sentido expressar o mundo que ganhara uma nova luz através de formas angustiantes e prenunciadores de uma angústia interior. Neste período, surge também uma reviravolta no campo compositivo, influenciado pelo espaço da pintura. O desenho passa a ser suporte da pintura, esboço de expressão plástica.


O elemento libertador

A figura feminina é durante toda a fase do desenho um elemento de extraordinária importância: é ele o elemento libertador do ser, o salvador da alma aprisionada por uma infância constrangedora e apática em relação ao mundo. Efectivamente, é através dele que a libertação finalmente surge, mas é uma libertação marcada pela recusa: a alma abre-se ao mundo, mas é recusada pelo elemento libertador. Este aspecto lança o indivíduo num labirinto do qual não parece ter saída. Assim, o feminino perde o seu vulto, ganha definição, mas está sempre longe de quem o procura. Esta distância acabará por se tornar insuportável originando uma revolta “acesa” com o elemento social: como não poderia deixar de ser é o feminino que abre essa revolta (“A Lambisgóia”, Colectividade Absurda1, AnarScripta nº 1, 1984).
O desejo de libertação surge inicialmente com “O Olhar dos Corpos Dançantes” em 1980. O olhar desesperado, o silêncio do diálogo sobre os corpos em movimento, que parecem querer separar-se, escapar-se à própria imaginação. O medo. Um sonho interior, o da comunhão dos dois corpos pela dança. O desejo incomunicável de comunhão em movimento, em acção, em jovialidade. Uma presença que marcaria a própria vida, a certeza de que o olhar diz mais que as próprias palavras.
Este olhar marca, no fundo, um despertar, o abrir os olhos sobre o mundo. O olhar de “Broa(d)way” (ou recentemente renomeado de “O Labirinto”) de 19802. Principalmente dominado por uma estrutura geometrizante do espaço (do indivíduo), este será o cenário de encontro dos personagens de “A Caminho da Broa” (1983)3. Estes personagens, procuram indefinidamente um caminho sem saber qual, pois encontram-se completamente perdidos neste labirinto de caminhos que é a própria vida.
Mas o autor parece saber qual o caminho; enuncia-o em “O Olhar dos Corpos Dançantes” e profetiza-o em “Galáxia dos Cristais” em 1980. Aqui o elemento feminino e despoletador de uma tempestade que destrói em pequenos blocos a estrutura central. Por detrás dessa estrutura, aparece o sol, anuncia-se um novo dia, um novo olhar, uma nova claridade.
Mas a profecia encerra um desejo e um temor em simultâneo: o do desmoronar completo do elemento social e que este elemento arraste consigo o elemento feminino.
Em “Looking at the Top” (1980) a figura feminina olha uma montanha construída à base dos elementos de “Broa(d)way”, montanha esta que olha complaciva, impotente em a escalar. Por cima da figura e da montanha, o sol, a luz, que permanece inacessível. É o sol na sua posição de meio-dia, de pura inércia.
Este temor vem mais tarde a confirmar-se com “Clamor à Liberdade” (1984) onde estão registadas as duas atitudes (dentro e fora da prisão). Junto a uma grade, ou barras de uma prisão, apresentada sob a forma de recorte, dois rostos parecem simbolizar duas situações: um referente à situação de cativeiro, encerrando em si toda a sede de revolta e, consecutivamente um chamamento ou clamor à liberdade –é necessário notar que o chamamento vem do exterior. O próprio cativeiro pressupõe uma espera – o personagem tem as barbas compridas pronunciadoras da passagem do tempo, da espera. O outro rosto, em liberdade, fora do cativeiro, para lá da grade da prisão, é marcado pela inércia, o seu olhar perde-se no horizonte, insatisfeito. Esta insatisfação é precisamente o resultado dessa liberdade: o elemento chamador, despoletador dessa liberdade, não aceita o amor do seu libertado. Seguidamente a situação inverte-se e acaba o sujeito por sair revoltado com o próprio mundo, voltando-lhe as costas: o “Sitiado” (1980-81) apresenta três estágios de uma situação amorosa. Na parte superior, ele olha para ela, mas ela parece ignorar esse olhar. Na parte central, ela é uma árvore, ele uma espécie de pedestal: ela olha para ele, ele para um outro lugar, fios na sua condição de “sitiados” – não existe aproximação possível. Em baixo, o rosto ignora o corpo feminino, revestido de uma certa “zombeteria”. Este “Sitiado” é a reunião de “Entre Linhas” (1981), “Colle” (1981) e o “Farsante” (1980). É preciso notar que esta reunião ocorre em 84, depois já da fase da revolta, parecendo algo clara aqui a reflexão sobre uma certa parte do seu próprio passado.
Esta reflexão está presente, no fundo, em todos os trabalhos desta fase e prolongando-se até à fase da “Meta-Pintura”: a arte é encarada como representação de uma experiência. Esta experiência vai evoluindo da relação entre o sujeito e o social para o puro sensitivo. E o elemento feminino é o elo de ligação entre o ser e o social. É ele que surge, quer no desenho a preto e branco, quer na colagem, quer na fase transitiva para a pintura. Surge em “A Senhora do Manto Branco” (1982), “Olho-te daqui” (1983), “Collant Sleep 84” (1984), “A Eternidade” (1987) e nas séries “Mulheres I” e “Mulheres II” (1987).
Em “A Senhora do Manto Branco” a mulher parece esconder-se espreitando por detrás de um pano que voa livremente pelo desenho: ela é o centro da atenção, é nela que o olhar se prende, é ela que os dedos apontam, ignorando o sofrimento dele, a súplica. Este desenho ilustra aparentemente o episódio Bíblico de São João Baptista e Salomé. Ele é o sacrificado dos desejos dela, ela o instrumento do desejo dele. A presença dela é o elemento sacrificador de si próprio: através do elemento feminino, o artista entrega-se aos próprios infortúnios da sua virtude.
Em “Olho-te daqui”, ele olha-a aprisionado numa esfera, ela corre em direcção ao sol, para longe, para uma porta, para o outro lado da realidade. Ela é o elemento do sonho através do qual é possível atravessar a porta da realidade. No entanto, é ela que corre em direcção ao sol, ele está ali, estático, impotente na sua própria realidade (o buraco que se abre no solo mesmo em frente dele).
Em “Collant Sleep 84” o artista encara a mulher frente ao espelho, uma mulher que nos vira as costas e que se metamorfoseia incansavelmente.
A Senhora do Manto Branco”, “Olho-te daqui” e “Collant Sleep 84” apresentam-se como uma confirmação anunciada em “Entre Linhas”: o amor que se concebe e alimenta e que se sabe recusado. São, portanto, registos da própria vida amorosa do artista. É a arte como representação de experiências vividas.

Notas
1.     “Colectividade Absurda” constituiu o primeiro número do fanzine Anarscripta, editado pelo artista em 1984. Neste número, no qual participaram ..., Vieira publicou o texto desenhado “A Lambisgóia”, o qual produziu especificamente para esta publicação.

2.     “Broa(d)way / Labirinto”, desenho inspirado no álbum “Lamb Lies Down on Broadway” do grupo Genesis.

3.     “A Caminho da Broa”, conjunto de textos inspirados no desenho “Broa(d)way”, escritos em 1983. Desaparecido.


Cabeça Mirante II, 1980
Galáxia dos Cristais, 1980
Olho-te Daqui, 1983
A Senhora do Manto Branco, 1982
Looking at the Top, 1980
Pronta a Servir, 1983


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